11 de março de 2016

A RODA DE CANDOMBLÉ

Tata Ngunz'tala

Fizemos um passeio pela sequência dos cultos no Candomblé, especificamente na tradição Angola. Na roda o maior e o menor se completam e se juntam. Na roda não tem maior nem menor. Não tem começo nem fim.
Onde começa? onde termina? Não sei.
Sei que mais velhos puxam à frente para proteger quem vem atrás de possíveis perigos, mas quando roda se fecha todos se protegem reciprocamente. Dançar e louvar a Deus em ciclos, na gira, na roda, é sentir o movimento do universo desde o seu primeiro movimento e um movimento crescente que transcende e nos faz sentir tudo de maneira também imanente. 
Na roda todos estão protegidos ou todos e todas estão sob vulnerabilidade. Em caso de ataque todos/todas podem saber que alguém foi atacado e todos e todas podem se unir para ajudar ou, em caso de desequilíbrio, no ciclo também podemos apedrejar uns/uma aos outros/outras! Trocarmos pedradas. A roda também demonstra nossas fragilidades e pequenez. Candomblé é a roda da vida.
Não sofra se alguém está à sua frente ou depois de você, fazem parte e são elos da mesma roda. Um depende do outro. Se faltar um elo, a roda, a gira não está completa. Não existe melhor, nem maior, nem pior nem menor na roda de culto. Enquanto olhas a todos que seguem a roda também és olhado/olhada. Se sentes que na roda alguém é responsável por algum desequilibro em relação a você, não olhe como se existisse só um culpado. Na roda todos e todas são responsáveis por tudo que ali acontecer. Por que não nos perguntamos como estamos contribuindo para que alguém aja comigo daquela maneira? Sou só vítima enquanto a roda gira? Não! 
E quando se faz a roda interna dos mais velhos? É destaque e proeminência? Valoração de alguns e diminuição de outros? Não. É a roda dentro da roda. Tem hora que a roda maior perpassa pela menor. Sabe porque os mais velhos ficam na roda interna? Para serem observados. Copiados. Seguidos. Ali todos e todas tem status de pai e mãe. Ai vem a responsabilidade que o Candomblé não tira dos nossos ombros. Por isso a hierarquia, não para diminuir ou se sobressair sobre alguém, mas para aprender durante toda a vida iniciática e quando ser mais velho ser seguido, ser exemplo. É pesado está na roda de dentro.
O que eu, como mais velho que estou sendo observado e servindo de exemplo tenho a oferecer e a ensinar? E não é só nos ritos, nos gestos e nas danças não. É na vida. Como eu me comporto na roça e na vida? Sou acolhedor e ensinador ou murmurador e me preocupo mais em criticar do que em ensinar e acolher? Sou tirano no meu jeito de ser por que sou mais velho? E quando eu tiver com os meus mais velhos (sempre temos mais velhos que nós), como eu gostaria de ser tratados por eles e elas?  
E não é menos pesado está na roda externa. Ali observamos e somos observados também e também escolhemos qual exemplo seguir. É muito fácil atribuir aos mais velhos e mais novos que giram conosco tudo o que consideramos negativo, quando na verdade a escolha é minha. Por que não escolhi o melhor exemplo?
Por que ao invés de fazer com que um assunto acabe ali, eu incito ao irmão a se sentir magoado, quando na verdade um exemplo de outro irmão, seja mais velho ou mais novo nem o atingiu? Por que me sinto sempre perseguido, quando é uma questão minha escolher se uma ação vai me atingir ou não? Por que eu, mais velho ou mais novo, não me questiono em que eu estou contribuindo para que aquela pessoa aja comigo daquela forma ou tenha aquele sentimento em relação a mim?
E na roda temos mais velhos e mais novos fechando o ciclo. A roda está posta. Sou também responsável por tudo que acontece nela. Vamos girando? Vamos rodando? Vamos cultuando? Vamos dançar e bailar com e pelo sagrado, e sendo nós também parte do sagrado.
Espero que estes assunto da gira mude o meu olhar na próxima vez que me reunir numa grande roda de culto e me faça mais suave, menos crítico, menos acusador e mais compreensivo, mais unido com cada energia avocada e invocada na roda quando dos cânticos e danças para cada divindade.
Fé com entendimento é fé, por simples que seja o meu entendimento e compreensão de mundo. Mas fé sem entendimento estamos a um passo do fanatismo, do extremismo, ou de manipularmos ou sermos manipulados na nossa capacidade de vivenciar o sagrado.
E assim a gira gira!
"ô gira e deixa a gira girar, ô gira e deixa a gira girar"!

Tata Ngunz'tala
http://ngunzetala.wix.com/blog#!A-Roda-de-Candomblé/c218b/5576f3880cf2312d79786c71

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